O blues de Robert Crumb

A música sempre foi uma constante na obra de Robert Crumb. Em diversas histórias suas, mesmo aquelas que não são diretamente relacionadas ao gênero, é possível constatar o fascínio que o autor possui pela arte, principalmente o blues do começo do século 20. Foi com a intenção de reunir essa obra musical que a Conrad lançou Blues.

A edição brasileira, lançada originalmente em 2004 pela Conrad e que recentemente recebeu uma nova edição, reúne tantos os quadrinhos produzidos sobre o tema, quanto as artes feitas por Crumb para capas de LP’s e cartazes de concertos. O resultado dessa coletânea resultou numa das melhores obras sobre esse gênero musical e em uma abordagem bem diferente: a dos quadrinhos. Crumb foi prolífico em escrever sobre a música, sua intenção era captar a aura quase artesanal de onde surgiu o blues. Conhecemos por suas histórias um pouco de sua origem, significado e influências sobre a cultura americana.

No primeiro conto do encadernado, Crumb retrata a história de Charley Patton, um dos precursores do blues americano e que teve uma vida bastante atribulada, característica essa que não fugiu de sua atenção, ao passo que ela foi retratada com bastante irreverência e precisão (grande parte das informações da história foram tiradas do livro Deep Blues, de Robert Palmas). A carreira do músico foi quase toda construída longe da grande mídia, apesar dele ser um dos precursores do blues. Fica claro nesse ponto um certo ressentimento de Crumb quanto a isso. 

Na sequência vêm uma das sequências mais geniais de Crumb. Trata-se da história As Velhas Canções São as Melhores, onde ele desenha uma espécie de storyboard de algumas das música preferidas do autor. As canções escolhidas foram On The Street Where You Live, My Guy, Purple Haze e When You Go A Courtin, todos ela soberbamente ilustradas por desenhos hilários, fazendo da leitura uma experiência deliciosa.

O volume ainda nos apresenta diversas artes feitas por Crumb para capaz de LP’s, cartazes de shows, panfletos etc. A pretensão da edição é exatamente essa: ser uma espécie de volume definitivo sobre os trabalhos de Crumb sobre música. Em todas as histórias e artes que compõem o encadernado podemos notar o envolvimento do autor com a música que, como ele próprio admite no posfácio da edição, é uma das coisas que lhe mais dão prazer, mais, inclusive, do que desenhar.

Nesse ponto vale ressaltar que o posfácio da edição trata-se de leitura obrigatória para quem quer saber mais sobre as motivações de Crumb para escrever tais histórias. Ficamos, por exemplo, sabendo a origem da ideia de desenhar Uma Breve História da América, sequência de desenhos que retratam a evolução de uma paisagem natural (cheio de colinas e árvores) à artificial (cheia de prédios e concreto). A leitura desse posfácio dispensa a leitura de qualquer outra análise sobre o encadernado, de tão sinceros e esclarecedores são seus comentários.

Desse modo, seja você fã da arte de Crumb ou mesmo de música, principalmente blues, a leitura dessa obra é obrigatório.

BLUES

Roteiro e arte: Robert Crumb

Conrad, 2004

Avaliação: 4.5 de 5.

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