O extraodinário mundo de Jiro Taniguchi

Jiro Tanigushi é um dos meus autores favoritos por diversas razões, mas nenhuma delas me agrada mais do que a forma como ele encontra beleza na vida cotidiana. Desde O Homem que Passeia, primeira obra do autor lançada pela Devir e também a primeira que li dele, eu sou fascinado pela forma como ele aborda o ordinário como porta de entrada para o extraordinário.

Em “O Homem Que Passeia” praticamente não há nenhuma trama. Basicamente acompanhamos a rotina do protagonistas em seus passeis cotidianos, onde é capaz ele se conecta com a natureza e sua cidade. Esse tom contemplativo, embora seja o carro chefe da obra, não é vazia de propósito ou simulada. Jiro Taniguchi soube tirar um senso de significância e pertencimento disso tudo que fez com que a obra fosse uma das minhas favoritas.

O mais recente lançamento do autor no Brasil é “Zoo no Inverno” (Devir), uma das últimas obras de Tanigichi, lançado originalmente em 2008, pode ser considerado um dos sucessores espirituais de “O Homem Que Passeia”, lançado em 1990 no Japão.

Na obra, que se passa no ano de 1966, acompanhamos a história do jovem Hamagushi, que acaba de ser contratado numa empresa do setor têxtil. Mas a paixão dele é por desenho e o mangá acompanha seus primeiros passos em direção ao seu sonho de ser desenhista.

A personalidade introspectiva do protagonista fez lembrar um pouco a do personagem principal de “O Homem Que Passeia”, uma vez que predomina o tom contemplativo, que é marca registrada da obra de Taniguchi, mas, dessa vez, sob a ótica de um artista. É evidente que o autor colocou muito de si em Hamagushi, a ponto de me perguntar o quanto é ficcional a história.

Mas o mangá vai além disso. Esse é o Taniguchi mais sentimental que eu já li, uma vez que ele mergulha o leitor de cabeça nos medos, desejos e paixões de seus personagens. Hamagushi é colocado sob diversas situações que não só colocam sua a prova sua visão de mundo e das pessoas próximas, como seu irmão, como também a visão que ele tem de si próprio. Ao longo das páginas, o seu personagem cresce e ganha a nossa empatia incondicional.

Ao final do mangá, já nos consideramos íntimos daqueles personagens, a ponto de não querer mais parar de ler. Infelizmente, as páginas acabam muito antes do que a gente gostaria. E nesse ponto vem a minha maior crítica a obra: o final é muito abrupto, a ponto da gente se perguntar se está faltando alguma página.

Talvez seja uma impressão que Taniguchi fez questão de causar. Para nos fazer lembrar que todo momento é precioso e deve ser vivido intensamente, pois nunca se sabe o que vem a seguir…

PS: A editora Pipoca & Nanquim anunciou o lançamento de mais 3 obras do autor ao longo de 2022: “Um Bairro Distante”, “Tokyo Killers” e “A Valise do Professor”.

ZOO NO INVERNO

Fuyu no dôbutsuen, 2008

Devir, 2021, 238 páginas

De Jiro Taniguchi

Tradução de Arnaldo Oka

Avaliação: 4.5 de 5.

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