“Meus Heróis Eram Todos Viciados” não caiu na armadilha da glamourização do vício

Logo nas primeiras páginas de Meus Heróis Eram Todos Viciados (Editora Mino), há um aviso de que é uma história que se passa no universo de Criminal, que é uma série de quadrinhos, também de autoria da dupla Ed Brubaker e Sean Phillips, cujos arcos contam histórias independentes entre si, mas que possuem como fio condutor principal o fato de serem todas protagonizadas por criminosos. Criminal foi originalmente publicada pela Marvel a partir de 2006, mas posteriormente mudou-se para a Image, onde continua até hoje.

A Panini publicou os dois primeiros arcos da série (Coward e Lawless) entre 2010 e 2011, mas parou por aí. A Mino, que adquiriu os direitos de publicação das obras de Brubaker, está começando a colocar ordem na casa e publicar tudo que não saiu por aqui e também republicar o seu início. Já está, inclusive, em pré-venda o primeiro volume, “Covarde”, que compila as sete primeiras edições da série.

Mas onde é que entra Meus Heróis Eram Todos Viciados dentro desse universo? Como não li nenhuma das histórias da série principal, não sei dizer até onde a história desse quadrinho se envolve com as demais, mas saber disso é absolutamente irrelevante para apreciar a obra, tanto que a Mino optou por lançá-la antes mesmo de iniciar a publicação da série principal.

O quadrinho conta a história de Ellie, que está internada em uma clínica de reabilitação de dependentes químicos, mas que não tem nenhuma pretensão de se manter longe de problemas. Lá ela conhece Skip, também internado na instituição e por quem ela começa a nutrir certa afeição. A ação é entrecortada por passagens em que Ellie relembra sua infância ao lado da mãe viciada. E são nesses momentos que a obra mais ganha brilho.

Ellie ganha vida como um personagem complexo, saindo do perigoso lugar comum de drogada autodestrutiva e rebelde. Desde sempre ela é fascinada por músicos e personalidades dependentes químicos, exaltando a forma como a droga elevou as obras por elas produzidas a um patamar que não seria atingido sem ela. Isso poderia resvalar numa romantização gratuita às drogas se o lado obscuro do vício também não estivesse ali, literalmente desenhado para o leitor ver.

Por esses e outros motivos que Ellie é uma personagem fascinante, divertida, espontânea e profundamente deprimida. Ao longo da trama, de forma ou de outra, é sempre possível ver que há uma sombra pousada sobre ela, e o fato de Brubaker conseguir fazer isso sem se valer de um recurso melodramático rasteiro é impressionante. As páginas finais, uma continuação do que foi mostrado nas primeiras páginas, consiste numa das melhores coisas que eu já vi nos quadrinhos. Um fechamento capaz de cavar um buraco no coração do leitor. Tudo isso vindo de uma dupla criativa especializada em quadrinhos de crime e ação.

Meus Heróis Eram Todos Viciados é um mergulho em uma alma que precisa de socorro, mas não pede isso. É como Ellie fala nas primeiras páginas, citando uma música de Vic Chesnutt: “Não acenava, mas afogava”.

MEUS HERÓIS ERAM TODOS VICIADOS

My Heroes Have Always Been Junkies (2018)

De Ed Brubaker, Sean Phillips e Jacob Phillips

Mino, 2021, 72 páginas

Tradução de Dandara Palankof

Avaliação: 5 de 5.

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